O SÉCULO DAS TRANSIÇÕES: FIM DO TRÁFICO, NOVAS ELITES E A REVOLUÇÃO EDUCACIONAL NA ÁFRICA (SÉCULO XIX)
Resumo: O presente artigo analisa as profundas transformações endógenas vivenciadas pelo continente africano durante o século XIX, período frequentemente denominado "século pré-colonial", fundamentando-se no Volume VI da História Geral da África. Desconstruindo a tese de que a presença europeia seria uma condição prévia e necessária para o desenvolvimento das sociedades africanas, o estudo investiga a transição econômica forçada pelo fim do tráfico de escravizados e a consequente integração da África à nova economia-mundo capitalista. Destaca-se também a emergência de novas elites intelectuais e o florescimento de projetos de modernização e revolução educacional conduzidos pelos próprios africanos, a exemplo da Confederação Fanti. A análise demonstra que a África passava por um vigoroso processo de reestruturação política e social às vésperas da partilha colonial.
Palavras-chave: Século Pré-Colonial; Economia-Mundo; Abolição do Tráfico; Revolução Educacional; Confederação Fanti.
1. Introdução A historiografia tradicional eurocêntrica tendeu a retratar o século XIX africano como uma era de letargia, rompida apenas pela chegada "civilizatória" das potências coloniais no final do período. Contudo, o Volume VI da História Geral da África, coordenado por J. F. Ade Ajayi, propõe uma renovação interpretativa radical, demonstrando que o "século pré-colonial" foi marcado por acontecimentos revolucionários de caráter estritamente interno. Longe de constituir um continente passivo e à espera da colonização, a África vivenciou reformas administrativas, revoluções sociopolíticas (como o Mfecane na África Austral e as jihad na África Ocidental) e intensos processos de reunificação. Este artigo explora as dinâmicas daquele século de transições, avaliando em que medida as transformações estruturais antecederam a presença imperialista europeia, a qual, em vez de motor de progresso, impôs o subdesenvolvimento ao continente.
2. A Inserção na Nova Economia-Mundo e o Fim do Tráfico Negreiro A grande alteração nas relações da África com o resto do mundo não se iniciou com a partilha territorial do fim do século XIX; pelo contrário, a própria partilha foi a consequência direta de uma longa transformação das relações econômicas do continente com a Europa, um processo de inserção na economia-mundo capitalista que remontava a meados do século XVIII. O historiador Immanuel Wallerstein ressalta que essa integração submeteu o continente africano a novas exigências do mercado global.
Concomitantemente, o século XIX assistiu aos difíceis processos para a abolição do tráfico de escravizados. No cenário posterior às guerras napoleônicas e ao Congresso de Viena de 1815, a diplomacia britânica passou a pressionar outras nações para a assinatura de tratados bilaterais de supressão do comércio negreiro no Atlântico e no Oceano Índico. Essa transição exigiu das economias africanas uma rápida readequação comercial e produtiva para substituir a exportação de seres humanos pelo chamado "comércio lícito" de produtos agrícolas e matérias-primas essenciais para a industrialização europeia.
3. As Novas Elites e a Revolução Educacional Africana Enquanto as bases econômicas se alteravam, uma revolução intelectual tomava forma. O século XIX africano não assistiu apenas à consolidação de novas forças militares e mercantis, mas também ao surgimento de uma nova elite instruída, perfeitamente ciente das exigências do mundo moderno. A busca por modernização passava fundamentalmente por uma revolução educacional.
Um exemplo notável desse ímpeto autóctone foi a fundação da Confederação Fanti, na Costa do Ouro (atual Gana). A Constituição da Confederação, elaborada de forma independente por chefes e letrados africanos, possuía objetivos claríssimos: além de estabelecer uma aliança defensiva, visava construir uma rede rodoviária sólida para integrar os distritos do interior, desenvolver a agricultura e a exploração mineral. Mais impressionante ainda era o seu projeto pedagógico de criar escolas nacionais para a educação das crianças de ambos os sexos e garantir a contratação de mestres competentes. O artigo 22 de sua constituição previa a criação de escolas técnicas anexas às escolas nacionais, com a missão expressa de formar os alunos nas mais diversas profissões essenciais ao progresso do Estado, como carpinteiros, pedreiros, arquitetos, ferreiros e agricultores.
4. A Consciência Nacional e os Primórdios do Pan-Africanismo Essa nova geração de africanos escolarizados e politizados percebeu rapidamente as contradições do avanço imperial europeu e passou a teorizar sobre a própria identidade. Intelectuais e estadistas da época lutavam para não se deixarem assimilar pelas culturas estrangeiras a ponto de perderem a sua "personalidade africana". Como se alertava nas tribunas nacionalistas nascentes, renunciar à própria individualidade racial e cultural equivalia a anular a própria essência, de modo que o dever de todo africano era lutar pela preservação e pelo desenvolvimento de sua nação de maneira autônoma. As sementes teóricas do pan-africanismo e do direito inalienável à soberania política foram plantadas neste solo fértil do século XIX, antes que a repressão colonial as abafasse momentaneamente.
5. Considerações Finais A análise do "século pré-colonial", à luz do Volume VI da História Geral da África, desmantela o mito da paralisia continental. Quando a Conferência de Berlim precipitou a "Corrida pela África", ela não encontrou um vácuo institucional, mas sociedades em pleno processo de reforma agrária, comercial e educacional. A estruturação da Confederação Fanti e os esforços de outras nações mostram que o continente gerava, a partir de si mesmo, as respostas tecnológicas e intelectuais aos desafios da época. O trauma real do período não foi a ausência de desenvolvimento interno, mas sim o sequestro violento da soberania africana no momento exato em que suas novas elites lançavam as bases de Estados independentes e modernos integrados à nascente economia-mundo.
Referências
AJAYI, J. F. Ade (Ed.). África no início do século XIX: problemas e perspectivas. In: AJAYI, J. F. Ade (Ed.). História geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.
BOAHEN, A. Adu. A África ocidental. In: AJAYI, J. F. Ade (Ed.). História geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.
DAGET, S. A abolição do tráfico de escravos. In: AJAYI, J. F. Ade (Ed.). História geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.
WALLERSTEIN, Immanuel. A África e a economia-mundo. In: AJAYI, J. F. Ade (Ed.). História geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.
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