A DESCOLONIZAÇÃO DO SABER E A INTERDISCIPLINARIDADE NA HISTORIOGRAFIA AFRICANA
Resumo: Este artigo analisa os fundamentos metodológicos estabelecidos no Volume I da História Geral da África (HGA), focado na descolonização da historiografia africana e na adoção da interdisciplinaridade. O estudo demonstra como a superação do eurocentrismo exige uma perspectiva endógena e como a escassez de fontes escritas antigas impõe o cruzamento de diversas ciências, transformando a história em uma "disciplina sinfônica".
Palavras-chave: Historiografia Africana; Descolonização do Saber; Interdisciplinaridade; Metodologia Histórica.
1. Introdução A África tem uma história, apesar de, por muito tempo, mapas antigos a descreverem com a frase lapidar "Ibi sunt leones" (aí existem leões). O passado deste continente foi sistematicamente mascarado, camuflado, desfigurado e mutilado por imposições derivadas da ignorância e do interesse de nações colonizadoras. A elaboração da História Geral da África não se propõe a ser uma "história-revanche", mas sim uma iniciativa científica que busca mudar a perspectiva historiográfica para resgatar imagens perdidas e fomentar uma consciência autêntica (KI-ZERBO, 2010, p. XXXII). O princípio norteador dessa nova construção é de que a história e a cultura africanas devem ser vistas e analisadas a partir de seu interior, rejeitando a imposição de réguas de valores estrangeiros (KI-ZERBO, 2010, p. LII).
2. A Crítica à Historiografia Eurocêntrica e a Necessidade de uma Visão Endógena Durante séculos, mitos e preconceitos encobriram a realidade histórica da África, baseados na premissa de que os povos africanos seriam incapazes de criar culturas originais e desprovidos de fontes escritas que legitimassem o estudo científico de seu passado (M’BOW, 2010, p. XXI). Essa mentalidade foi fortemente influenciada por concepções derivadas do Iluminismo e cristalizadas por pensadores como Hegel, que, em sua Filosofia da História, afirmava que a África não era um continente histórico e que seus povos seriam incapazes de desenvolvimento (FAGE, 2010, p. 8).
Essa tradição eurocêntrica encontrou eco na historiografia profissional do final do século XIX e início do século XX, exemplificada pelo professor A. P. Newton, que defendia que a África não possuía história antes da chegada europeia, pois "a história começa quando o homem se põe a escrever" (FAGE, 2010, p. 10-11). Tais abordagens subjetivas mascaravam uma ignorância voluntária e relegavam as sociedades africanas ao papel de meros objetos da história alheia.
Para romper com esses paradigmas, impõe-se uma verdadeira revolução copernicana no campo da semântica e da metodologia histórica, recuperando a corrente da história do continente a partir de novos moldes que priorizem o direito à diferença e a formação de uma personalidade coletiva autônoma (KI-ZERBO, 2010, p. LIII). Essa perspectiva endógena visa refletir fielmente a maneira pela qual os autores africanos veem sua própria civilização (OGOT, 2010, p. XXVIII).
3. A Interdisciplinaridade como "Disciplina Sinfônica" A refutação do primado exclusivo do documento escrito exigiu a construção de uma nova estratégia de pesquisa. Na África, a escassez de fontes escritas, particularmente antes do século XV, obriga a historiografia a coligar todas as fontes disponíveis para reconstituir o passado, transformando essa aparente carência num fator positivo que liberta a disciplina do peso esmagador da escrita (KI-ZERBO, 2010, p. 387-388).
O método adotado repousa na interdisciplinaridade, elevando a história ao status de uma "disciplina sinfônica", onde a palavra é concedida simultaneamente a múltiplos ramos do conhecimento, cujas vozes se ajustam às exigências específicas de cada etapa da investigação (KI-ZERBO, 2010, p. LVI). Essa interdisciplinaridade não pode ser uma mera justaposição de resultados; exige, antes, um enxerto de abordagens e disciplinas, estabelecendo estratégias conjuntas desde o início da pesquisa (KI-ZERBO, 2010, p. 396).
Na prática, o historiador do continente africano assemelha-se a um automobilista que, para avaliar a distância com precisão, precisa utilizar simultaneamente o velocímetro, o relógio, os marcos na estrada e o testemunho de um habitante local (KI-ZERBO, 2010, p. 389). A arqueologia, as tradições orais, a linguística e a antropologia atuam de forma interdependente; isolada, a arqueologia corre o risco de tornar-se uma descrição árida, mas, quando recolocada no contexto vivo proporcionado por outras ciências, ganha pleno sentido e explicação (KI-ZERBO, 2010, p. 390). A linguística, por exemplo, atua como um museu vivo das tradições, enquanto os processos físico-químicos modernos afiam a apreensão cronológica do passado.
4. Considerações Finais A elaboração da história africana, expurgada de preconceitos anacrônicos, constitui um exercício vital de memória coletiva. Ao aplicar rigorosamente métodos de interdisciplinaridade, a historiografia africana assegura a restituição clara e integral da imagem de seu passado. Longe de ser uma simples ciência subsidiária, a história torna-se o caminho pelo qual as sociedades africanas recuperam sua raiz, sua identidade e seu legítimo papel como sujeitos ativos no longo processo de progresso global.
Referências
FAGE, J. D. A evolução da historiografia da África. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. 1-22.
KI-ZERBO, Joseph. Introdução Geral. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. XXXI-LVI.
KI-ZERBO, Joseph. Os métodos interdisciplinares utilizados nesta obra. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. 387-399.
M'BOW, Amadou Mahtar. Prefácio. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. XXI-XXVI.
OGOT, Bethwell Allan. Apresentação do Projeto. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. XXVII-XXX.
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