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quarta-feira, 22 de abril de 2026

O CHOQUE DE 1935, A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E A ALVORADA DAS INDEPENDÊNCIAS: A BUSCA PELO "REINO POLÍTICO"

 O CHOQUE DE 1935, A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E A ALVORADA DAS INDEPENDÊNCIAS: A BUSCA PELO "REINO POLÍTICO"

Resumo: O presente artigo inaugura a análise do Volume VIII da História Geral da África, focado no período a partir de 1935. O estudo examina como a invasão da Etiópia pela Itália fascista de Mussolini representou, de fato, o início da Segunda Guerra Mundial para o continente africano, atuando como um poderoso catalisador do sentimento pan-africanista e anticolonial. Analisam-se, em seguida, as profundas transformações sociopolíticas acarretadas pelo envolvimento da África no conflito mundial e a apropriação, pelas elites africanas, dos ideais da Carta do Atlântico. Por fim, o artigo discute a primazia da luta pela soberania através da doutrina de Kwame Nkrumah — a busca pelo "reino político" —, evidenciando como a independência nacional tornou-se a condição necessária para a emancipação do continente. 

Palavras-chave: Segunda Guerra Mundial; Invasão da Etiópia; Pan-Africanismo; Kwame Nkrumah; Descolonização; História da África (1935-).

1. Introdução Na história contemporânea do continente africano, o ano de 1935 constitui um divisor de águas de importância inestimável. Enquanto a historiografia ocidental frequentemente situa o início da Segunda Guerra Mundial na invasão da Polônia em 1939, para a África, o conflito efetivamente começou em outubro de 1935, com a agressão das tropas fascistas de Mussolini à Etiópia. O Volume VIII da História Geral da África, editado por Ali A. Mazrui, escolhe esta data exata para iniciar a análise da transição da África colonial para a África independente. Este artigo explora as consequências dramáticas do choque etíope, os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial nas estruturas coloniais e, sobretudo, a formulação da estratégia de libertação sintetizada na célebre premissa de Kwame Nkrumah: "Procurai primeiramente o reino político...".

2. A Invasão da Etiópia e o Despertar Pan-Africano A invasão da Etiópia pelo exército fascista italiano, que contava com superioridade armamentista e totalizava cerca de 400.000 homens, resultou na ocupação de Adis-Abeba em 1936 e forçou o imperador Hailé Selassié ao exílio. A humilhação de um dos últimos bastiões independentes do continente produziu uma onda de choque que reverberou por todo o mundo negro.

Após a invasão, o imperador Hailé Selassié fez um discurso histórico na Liga das Nações, denunciando o uso de armas químicas pelos italianos e exigindo o respeito à soberania das nações africanas. Esse evento aniquilou a antiga ambivalência da casa imperial etíope — que historicamente preferira ligar-se ao Oriente Médio — e fez com que a Etiópia se descobrisse definitivamente como participante da condição africana. Ao mesmo tempo, a notícia da agressão italiana estimulou a consolidação de uma identidade pan-africana em jovens líderes, como o estudante Kwame Nkrumah, que, caminhando pelas ruas de Londres, não pôde reprimir lágrimas de cólera ao ler os cartazes sobre a invasão.

3. A Segunda Guerra Mundial e o Fim do Mito Imperial Os anos de 1939 a 1945 transformaram regiões inteiras da África, como o norte do continente e o Chifre da África, em vastos campos de batalha. O envolvimento africano no conflito global não se deu apenas como palco de operações militares, mas através do envio de soldados e do fornecimento intenso de matérias-primas e víveres para os Aliados.

O término dos combates em 1945 produziu um efeito psicológico e político imediato: a França e a Grã-Bretanha perderam o seu "capital de intimidação", aquele prestígio inquestionável de invencibilidade que haviam adquirido no século XIX. Além disso, a justificativa da guerra dos Aliados — a luta contra a tirania e o fascismo — pareceu condenar implicitamente o próprio sistema colonial, que também operava como uma forma de tirania racial. Os nacionalistas africanos souberam apropriar-se rapidamente dos novos compromissos internacionais, como a Carta do Atlântico (1941) e a Carta de São Francisco, interpretando o direito à autodeterminação dos povos como um direito universal, aplicável também às colônias africanas. Apesar de manobras conservadoras como a Conferência de Brazzaville (1944), onde as autoridades da França Livre decidiram excluir qualquer possibilidade de "self-governments" e autonomia real para as colônias, o despertar das consciências já era irreversível.

4. "Procurai Primeiramente o Reino Político" Nesse cenário de radicalização pós-guerra, a estratégia principal dos movimentos anticoloniais foi lapidada pelo líder ganense Kwame Nkrumah na máxima: "Procurai primeiramente o reino político e todo o restante vos será dado em suplemento". Essa declaração contrastava frontalmente com o determinismo econômico marxista, afirmando a absoluta primazia do político nos assuntos humanos da situação colonial.

Para Nkrumah e para os líderes do nacionalismo moderno da época, a África precisava, irrevogavelmente, adquirir a soberania política (o "reino político") como condição necessária para satisfazer quaisquer outras aspirações sociais, educacionais ou econômicas. Esse processo desdobrou-se em mobilizações não violentas de massas (como as greves e boicotes na África Ocidental no final da década de 1940) e, posteriormente, em lutas armadas em regiões sob domínio de minorias brancas recalcitrantes. Embora a história posterior das nações africanas (incluindo Gana) tenha demonstrado que a independência política não era uma condição "suficiente" para garantir o sucesso econômico imediato frente ao neocolonialismo capitalista, ela continuava sendo o pré-requisito fundamental para que a África pudesse sentar-se à mesa do sistema internacional moderno como um ator soberano, e não como um mero peão.

5. Considerações Finais O decênio que vai da crise de 1935 até o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 assinala a decadência irreversível da era colonial. Ao se defrontar com as agressões do fascismo europeu, a África articulou o seu mais vigoroso nacionalismo. Das praças de Adis-Abeba às ruas das capitais da África Ocidental britânica e francesa, o continente compreendeu que não bastava exigir melhores condições administrativas; a sobrevivência de sua dignidade exigia a apropriação incondicional do seu próprio destino. A busca pelo reino político não foi uma concessão metropolitana, mas a resposta contundente da África e da sua diáspora à falência civilizatória da Europa na primeira metade do século XX.


Referências

BOAHEN, A. Adu; SURET-CANALE, Jean. A África ocidental. In: MAZRUI, Ali A. (Ed.). História geral da África, VIII: África desde 1935. Brasília: UNESCO, 2010.

CHENNTOUF, Tayeb. O chifre da África e a África setentrional. In: MAZRUI, Ali A. (Ed.). História geral da África, VIII: África desde 1935. Brasília: UNESCO, 2010.

MAZRUI, Ali A. Introdução. In: MAZRUI, Ali A. (Ed.). História geral da África, VIII: África desde 1935. Brasília: UNESCO, 2010.

MAZRUI, Ali A. "Procurai primeiramente o reino político...". In: MAZRUI, Ali A. (Ed.). História geral da África, VIII: África desde 1935. Brasília: UNESCO, 2010.

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