O NORTE DA ÁFRICA E O CORREDOR DO NILO: MODERNIZAÇÃO, ENDIVIDAMENTO E RESISTÊNCIA (SÉCULO XIX)
Resumo: O presente artigo analisa as reconfigurações políticas e os projetos de modernização no Norte da África, no Egito e no Chifre da África durante o século XIX, com base no Volume VI da História Geral da África. O estudo demonstra o protagonismo africano nas reformas de Estado, destacando a promulgação de constituições pioneiras na Tunísia e no Egito, além do vigoroso esforço de unificação do Império Etíope. Contudo, evidencia-se o paradoxo desse "século pré-colonial": a busca vital por modernização tecnológica e militar levou os governos magrebinos e egípcios a contraírem pesados empréstimos europeus. O endividamento resultante foi metodicamente utilizado pelas potências imperialistas como pretexto para a infiltração financeira e, por fim, para a ocupação militar.
Palavras-chave: Magreb; Egito; Etiópia; Imperialismo Financeiro; Modernização; Século XIX.
1. Introdução O século XIX no Norte da África e no Chifre da África foi um período de transformações revolucionárias e não de letargia. Diante da crescente ameaça do imperialismo e do desenvolvimento do capitalismo industrial na Europa, os dirigentes africanos destas regiões compreenderam que a sobrevivência de seus Estados dependia de uma rápida modernização tecnológica, militar e institucional. Conforme atesta o Volume VI da História Geral da África, essa dinâmica impulsionou importantes reformas endógenas. Contudo, a necessidade de financiar estradas de ferro, telégrafos e exércitos modernos lançou estes países em uma teia de empréstimos e concessões prejudiciais, inaugurando a tática da ocupação colonial impulsionada pelo estrangulamento das dívidas externas.
2. O Egito: Da Modernização à Revolução Urabista O Egito conheceu um intenso período de reformas durante o século XIX, no qual seus governantes tentaram consolidar um modelo autônomo de Estado moderno. Um passo importante ocorreu em outubro de 1866, com a criação do Madjlis shūrā al-nuwwāb, uma assembleia de deputados encarregada de deliberar sobre os interesses superiores do país.
Contudo, a imensa acumulação de dívidas forçou a submissão aos ditames britânicos e franceses. Frente ao absolutismo do Quediva Tawfik e à intromissão estrangeira, explodiu a Revolução Urabista (1881-1882). Liderada pelo coronel Ahmad Urabi, a revolução logrou formar um gabinete nacionalista – do qual o próprio Urabi tornou-se ministro da Guerra – e forçou a promulgação de uma constituição relativamente liberal em fevereiro de 1882. Receosas de que o novo governo ameaçasse seus privilégios financeiros e seu controle estratégico sobre o Canal de Suez, as potências europeias intervieram militarmente e a Grã-Bretanha ocupou o país.
3. O Magreb: Constitucionalismo e a Ameaça Imperialista A porção ocidental do Norte da África também buscou resistir através de adaptações estruturais. A Tunísia, sob Ahmad Bey (1837-1855), modernizou seu exército com escolas politécnicas e aboliu a escravidão em 1846, antecedendo a própria França e a Turquia nesta medida. Visando atrair simpatias liberais e estimular negócios, o país promulgou o Pacto Fundamental ('ahd al-amān) em 1857 e, em 1861, adotou a primeira Constituição do mundo arabo-muçulmano, estabelecendo a separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário. No entanto, a construção precipitada de infraestruturas encareceu as despesas do Estado, e as isenções fiscais concedidas aos europeus mergulharam a Tunísia em um endividamento que levou à duplicação dramática de impostos. O endividamento fragilizou o Estado de tal modo que abriu as portas à ocupação colonial, que, como no caso argelino, era precedida pelo aniquilamento dos recursos navais da região.
Na Argélia, o processo de tomada do território francês iniciara-se ainda em 1830, seguido por um vácuo político marcado por vigorosa resistência interna. Os argelinos impuseram revezes iniciais aos franceses, e a oposição à presença invasora agrupou massas camponesas determinadas a defender sua personalidade em torno de líderes notáveis.
4. O Chifre da África: A Restauração Etíope e o Desafio Italiano Enquanto o norte islâmico debatia-se com dívidas, o Chifre da África assistia a um processo heroico de reunificação e resistência do Império Etíope frente às potências europeias. O imperador Menelik II, assim como seus antecessores imediatos, lutou para expandir as fronteiras e importar o conhecimento necessário à defesa de sua soberania.
O marco das tensões com a Europa foi o Tratado de Wuchale (Uccialli), assinado em 1889 com a Itália. A Itália redigiu duas versões divergentes do Artigo 17: a versão amárica estipulava que a Etiópia poderia usar a diplomacia italiana para dialogar com outras nações, enquanto a versão italiana afirmava que o recurso à Itália era obrigatório, reduzindo a Etiópia a um protetorado. Quando Menelik II descobriu a fraude, recusou-se veementemente a ceder. A imperatriz consorte, Taytu, declarou de forma firme e incisiva aos representantes italianos que a Etiópia jamais aceitaria tal humilhação, priorizando sua dignidade independente. Esse impasse pavimentou o caminho para a formidável Batalha de Adowa (1896), que consagraria a mais retumbante derrota de um exército europeu em solo africano.
5. Considerações Finais O século XIX revela a tragédia de sociedades africanas que demonstraram enorme vivacidade intelectual e institucional ao formularem constituições, abolirem sistemas escravocratas e organizarem frentes nacionalistas. O "século pré-colonial" magrebino, egípcio e etíope não foi um período de marasmo, mas o cenário de um choque entre a vontade endógena de renascimento civilizacional e as artimanhas do imperialismo econômico das potências da Revolução Industrial europeia. A ocupação formal que se seguiria não derivou da falta de estrutura africana, mas foi o cínico resgate das penhoras e hipotecas impostas pelas armas e pelos bancos da Europa.
Referências
ABDEL-MALEK, A. O renascimento do Egito (1805-1881). In: AJAYI, J. F. Ade (Ed.). História geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.
IVANOV, N. A. Novas formas de intervenção europeia no Magreb. In: AJAYI, J. F. Ade (Ed.). História geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.
MHITI, M. H. Novos desenvolvimentos no Magreb: Argélia, Tunísia e Líbia. In: AJAYI, J. F. Ade (Ed.). História geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.
PANKHURST, R. A Etiópia e a Somália. In: AJAYI, J. F. Ade (Ed.). História geral da África, VI: África do século XIX à década de 1880. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.
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