Pesquisar este blog

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A COSTA ORIENTAL, A NÚBIA CRISTÃ E A ORIGINALIDADE DE MADAGASCAR (SÉCULOS VII AO XI)

 



A COSTA ORIENTAL, A NÚBIA CRISTÃ E A ORIGINALIDADE DE MADAGASCAR (SÉCULOS VII AO XI)

Resumo: O presente artigo investiga as dinâmicas históricas da África Oriental e Insular entre os séculos VII e XI, com base no Volume III da História Geral da África. Embora o período seja amplamente marcado pela expansão islâmica, a pesquisa destaca a vitalidade de civilizações não islamizadas ou sincréticas na região. O estudo aborda a resistência e o esplendor arquitetônico da Núbia e da Etiópia cristãs, o desenvolvimento das cidades comerciais da costa Swahili (como Kilwa) e a complexa formação do povoamento de Madagascar. Enfatiza-se o uso de fontes orais e de uma abordagem multidisciplinar para desconstruir mitos coloniais e evidenciar a profunda integração dessas sociedades nas redes mercantis do Oceano Índico. Palavras-chave: África Oriental; Núbia Cristã; Etiópia; Madagascar; Oceano Índico.

1. Introdução Enquanto o Norte da África e o Sudão Ocidental experimentavam profundas reconfigurações impulsionadas pelas rotas transaarianas e pelo advento do Islã, a fachada oriental do continente e suas ilhas adjacentes vivenciavam dinâmicas igualmente vibrantes. O Volume III da História Geral da África dedica atenção a essas regiões para refutar a ideia de que as áreas não islamizadas teriam permanecido estagnadas ou isoladas. Este artigo explora três grandes eixos da África Oriental entre os séculos VII e XI: o esplendor dos reinos cristãos no corredor do Nilo e no Chifre da África, o surgimento da cultura costeira Swahili e as especificidades do povoamento de Madagascar.

2. A Resistência e o Esplendor da Núbia e da Etiópia Cristãs Ao sul do Egito e nas terras altas do Chifre da África, o cristianismo não apenas resistiu ao avanço islâmico, mas também floresceu, gerando culturas originais. A arquitetura da Núbia cristã passou por transformações notáveis: sob fortes influências bizantinas, as igrejas (tanto de plano central quanto retangular/basilical) passaram a ser cobertas por cúpulas, adotando o uso comum do tijolo cru e pilares de tijolos em substituição às antigas colunas.

Na Etiópia, o período histórico foi extremamente fecundo para a Igreja, que se estabeleceu com firmeza em territórios recém-anexados pelo império. O dinamismo etíope desse período foi impulsionado por um intenso movimento de renovação espiritual e cultural, marcado fortemente pela atuação das ordens religiosas de Tekle-Haymanot e Eustateos.

3. A Costa Oriental e as Redes do Oceano Índico As cidades da costa oriental africana funcionaram como os grandes terminais ocidentais da vasta rede de comércio do Oceano Índico. O período testemunhou o florescimento da cultura Swahili, caracterizada por uma mestiçagem profunda entre populações banto autóctones e mercadores árabes e persas. Em centros comerciais como Kilwa, essa simbiose gerou civilizações prósperas. A dinastia Abū al-Mawāhib, por exemplo, originária do Iêmen, enraizou-se em Kilwa e foi fundamental para o florescimento da civilização local, mantendo práticas de sucessão que mesclavam tradições locais e islâmicas.

4. A Originalidade do Povoamento de Madagascar O estudo de Madagascar exige o abandono de velhas problemáticas coloniais e evolucionistas, baseando-se em ricas fontes orais (muitas vezes anexadas a textos redigidos em caracteres arábico-malgaxes, os sorabe ou volan’Onjatsy) e na pesquisa pluridisciplinar.

A formação identitária da grande ilha resultou de uma lenta e complexa interação étnica e cultural que incluiu aportes africanos, indonésios, árabes e hindus. Longe de ter sido povoada tardiamente, as pesquisas arqueológicas e históricas confirmam que Madagascar participava de forma intensa do comércio do Oceano Índico desde os primórdios do primeiro milênio. Os estudos contemporâneos buscam reavaliar as narrativas sobre a instalação de grupos árabes e sobre os antigos habitantes vazimba, desmistificando as visões hierarquizadas que tentavam explicar as origens da população malgaxe.

5. Considerações Finais A análise do corredor oriental e insular africano entre os séculos VII e XI atesta a imensa diversidade do continente. Seja resistindo e adaptando o cristianismo na Núbia e na Etiópia, seja criando a cultura mercantil Swahili, ou forjando uma síntese afro-asiática única em Madagascar, as populações da África Oriental demonstraram um protagonismo inegável. Elas conectaram o continente aos mercados da Península Arábica, da Índia e do Sudeste Asiático, provando que a África medieval estava inserida em um vigoroso circuito de globalização muito antes do período moderno.


Referências

DOMENICHINI-RAMIARAMANANA, Bakoly. Madagascar. In: FASI, Mohammed El (Ed.). História geral da África, III: África do século VII ao XI. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. 799-844.

FASI, Mohammed El (Ed.). História geral da África, III: África do século VII ao XI. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.

MEKOURIA, Tekle Tsadik. A Igreja cristã e a expansão da Etiópia. In: FASI, Mohammed El (Ed.). História geral da África, III: África do século VII ao XI. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.

LIMA, Mônica. A África tem uma história (Resenha da Coleção História Geral da África). Revista de História (SciELO), 2010.



Nenhum comentário:

Postar um comentário