ARTIGO 4: A REVOLUÇÃO NEOLÍTICA AFRICANA – AGRICULTURA, ARTE RUPESTRE E O ADVENTO DA METALURGIA
Resumo: O presente artigo investiga as transformações fundamentais ocorridas na África durante a transição para a economia de produção, baseando-se no Volume I da História Geral da África. A análise aborda a arte rupestre como um registro vivo das mudanças ecológicas e sociais, identifica os centros endógenos de domesticação de plantas que refutam a exclusividade do Oriente Próximo como berço agrícola, e examina o continuum cultural no Vale do Nilo. Demonstra-se como a necessidade de irrigação impulsionou a organização social, culminando no advento da metalurgia e na formação do Estado unificado egípcio, consolidando um modo de produção original no continente. Palavras-chave: Neolítico Africano; Centros Agrícolas Primários; Arte Rupestre; Metalurgia Antiga; Formação do Estado.
1. Introdução A transição do estágio de apropriação dos recursos naturais (caça e coleta) para o estágio de produção (cultivo e criação) representa a mudança fundamental que permitiu ao homem dominar os ecossistemas, libertando-se parcialmente de suas imposições. Durante muito tempo, as ideias sobre as origens da agricultura foram fortemente influenciadas pelo etnocentrismo, que considerava o Oriente Próximo como o único núcleo de origem da civilização e da "revolução neolítica" para o Velho Mundo. O Volume I da História Geral da África desarticula essa visão restritiva, evidenciando o papel de destaque do continente africano no desenvolvimento de técnicas agrícolas endógenas e na difusão da metalurgia. Este artigo explora as manifestações artísticas, a domesticação botânica e a emergência da complexidade sociopolítica no continente africano até o século V a.E.C.
2. A Arte Rupestre como Primeiro Livro de História A consolidação das sociedades pré-históricas africanas pode ser "lida" através de sua arte mural e plástica, considerada o primeiro livro de história do continente. Com o aparecimento do homem, surge não só o homo faber, mas o homo artifex, que deixou centenas de milhares de gravuras e pinturas em centros privilegiados como o Saara e a África austral.
Longe de ser uma mera importação do Paleolítico europeu (franco-cantábrico), a arte rupestre africana é uma civilização autóctone com pólos ou epicentros genuinamente continentais originados nos montes Atlas. Através de seus afrescos, é possível reconstituir o meio ambiente ecológico da época; a representação de animais como o elefante e o hipopótamo comprova que o Saara pré-histórico possuía águas perenes e vegetação mediterrânea, configurando um biótopo drasticamente diferente da aridez atual. A arte documenta também a evolução das atividades de subsistência, mostrando a passagem gradual da fase de espreita e caça com armadilhas para a domesticação e o pastoreio de bovídeos, ovinos e caprinos. No âmbito social e espiritual, essas imagens capturam desde a estética do vestuário e ritos de fecundidade até a transição da magia paroxística para a religião estruturada.
3. Os Berços Agrícolas e a Domesticação Endógena No que tange à economia de produção, o continente africano provou ser um centro independente de inovações. As pesquisas de N. I. Vavilov foram cruciais para romper o preconceito colonial, permitindo reconhecer a existência de "centros de variação primária" de plantas cultivadas na África. O estabelecimento da agricultura foi favorecido por modificações climáticas, como a fase úmida do Makaliense (c. -5500 a -2500), que elevou o nível dos rios e lagos, propiciando a pesca, a sedentarização relativa e a transição para a produção agrícola.
Em vez de um único ponto de difusão, a África apresenta múltiplos berços agrícolas primários: o afro-mediterrâneo, o afro-ocidental, o nilo-abissínio, o afro-central e o afro-oriental. O continente desenvolveu um complexo agrícola baseado em plantas nativas, o qual beneficiou o resto do mundo. Na imensa faixa de savanas e estepes periféricas à floresta, desenvolveu-se a agricultura de cereais, sendo o sorgo (Sorghum sp.) a cultura comum a todas as áreas desse centro. Na África Ocidental, operou-se a domesticação do arroz africano (Oryza glaberrima) no delta central do Níger e o cultivo do inhame (Dioscorea spp) e da palmeira-do-azeite nas zonas florestais.
4. A Metalurgia e a Emergência do Estado no Vale do Nilo A evolução para sociedades estatais complexas deu-se de forma magistral no Vale do Nilo, onde não houve qualquer ruptura ou hiato entre o Neolítico e o Eneolítico (ou Calcolítico). O desenvolvimento cultural ocorreu em um continuum, em que as culturas da Idade do Cobre revelaram-se descendentes diretas das comunidades neolíticas precedentes. O cobre foi introduzido gradualmente; sua metalurgia pode ter sido importada do Oriente Próximo em escala mínima ou, mais provavelmente, ter derivado de uma descoberta autóctone fortuita, associada ao aquecimento da malaquita para a produção de esmalte azul (a "faiança egípcia") usado em adornos.
A verdadeira mola propulsora da civilização nilótica, contudo, foi a necessidade de "domesticar" as cheias irregulares do rio através da construção coletiva de diques e bacias artificiais de irrigação. Esse colossal esforço comunitário deu origem aos primeiros sistemas sociais centralizados, agrupando etnias em províncias e, posteriormente, formando duas grandes confederações: a do Norte (Baixo Egito) e a do Sul (Alto Egito). No período Pré-Dinástico Recente, essa dualidade encerrou-se com a vitória do Sul sobre o Norte, consolidando o Egito num Estado unificado e administrado por uma monarquia de direito divino. Já o ferro teria sua difusão mais tardia; a partir da civilização de Meroé e pelas rotas transaarianas, a metalurgia do ferro se expandiria fortemente pela África após o século VIII a.E.C..
5. Considerações Finais A Revolução Neolítica na África superou a simples obtenção de alimentos para transformar radicalmente as estruturas demográficas e institucionais do continente. O aumento das forças produtivas propiciou o surgimento de um modo de produção africano sui generis, caracterizado historicamente por uma relativa aversão à propriedade privada absoluta do solo (nos moldes do direito romano), mantendo as terras sob uso e apropriação predominantemente coletivos. Ao domesticar espécies botânicas nativas, transmutar metais e construir impérios altamente administrados, as antigas populações africanas atuaram como agentes soberanos do progresso tecnológico e social. A autocriação do homem, deflagrada nessa profunda Pré-História africana, moldou civilizações que não apenas se adaptaram aos seus desafiadores ecossistemas, mas que transferiram legados cruciais para o avanço de toda a humanidade.
Referências
KI-ZERBO, Joseph. A arte pré-histórica africana. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. 743-780.
KI-ZERBO, Joseph. Conclusão: Da natureza bruta à humanidade liberada. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. 833-851.
PORTÈRES, R.; BARRAU, J. Origens, desenvolvimento e expansão das técnicas agrícolas. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. 781-802.
VERCOUTTER, J. Descoberta e difusão dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais até o século V antes da Era Cristã. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2. ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010. p. 803-832.
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