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quarta-feira, 22 de abril de 2026

O NACIONALISMO POLÍTICO, O PAN-AFRICANISMO E O BALANÇO DO COLONIALISMO (1919-1935)


 O NACIONALISMO POLÍTICO, O PAN-AFRICANISMO E O BALANÇO DO COLONIALISMO (1919-1935)

Resumo: O presente artigo encerra o dossiê metodológico referente ao Volume VII da História Geral da África, abordando o período que se estende do final da Primeira Guerra Mundial até o ano de 1935. O estudo examina a transição das formas tradicionais de resistência armada para o nacionalismo político moderno. Analisa-se como as novas elites, os camponeses e os trabalhadores urbanos utilizaram o sindicalismo, as associações agrícolas e a imprensa para contestar a dominação europeia. Destaca-se, igualmente, a internacionalização da luta africana através do fortalecimento do pan-africanismo e dos laços com a Diáspora. Por fim, o artigo apresenta o balanço histórico do colonialismo, evidenciando que, apesar do trágico legado de exploração e humilhação, esse período semeou as forças sociais que conduziriam o continente às lutas definitivas por independência. 

Palavras-chave: Nacionalismo Político; Pan-Africanismo; Sindicalismo; Diáspora Africana; História da África (1919-1935).

1. Introdução O período compreendido entre 1919 e 1935 marcou o apogeu da administração colonial na África, mas também abrigou as sementes da sua própria destruição. O Volume VII da História Geral da África refuta a ideia de que a pacificação militar europeia tenha silenciado o continente. O fim da Primeira Guerra Mundial trouxe novas dinâmicas: a resistência não desapareceu, mas mudou de tática. Diante da esmagadora força do Estado colonial, as lideranças africanas substituíram gradualmente os levantes armados por métodos de contestação política, econômica e ideológica. Este artigo explora o surgimento do nacionalismo moderno, a articulação internacional do pan-africanismo e realiza o balanço definitivo dessa época sombria, revelando que a agência africana manteve-se inquebrantável.

2. A Nova Resistência: Associações, Sindicatos e Nacionalismo A exploração econômica e a expropriação de terras forçaram as populações rurais e urbanas a criarem novas ferramentas de defesa. Como demonstram pesquisas recentes feitas em Gana, os habitantes das zonas rurais tinham forjado dois instrumentos para a consecução desses objetivos, nomeadamente o instrumento tradicional das companhias asafo, isto é, organizações permanentes dos povos de língua akan para fins militares e sociais, fora do controle dos chefes tradicionais ou da elite política, assim como novas associações, como a Cocoa Farmers Association e a Gold Coast Federation of Cocoa, criadas respectivamente em 1910 e em 1928.

Os métodos empregados por tais organizações eram as petições e os bloqueios da expedição de produtos, impondo pesados reveses econômicos aos colonizadores. A mais interessante dessas companhias asafo, nascida nas zonas rurais, foi a Kwahu, que, em 1915, convocou o chefe local (omanhene) e o obrigou a assinar um documento regulamentando a vida política e econômica do Estado; este documento foi ratificado em 1917 e ficou conhecido como uma verdadeira "Magna Carta" africana.

Nas áreas urbanas e nos complexos de mineração, a resistência assumiu a forma do sindicalismo e da apropriação do discurso religioso com viés igualitário. Líderes operários e religiosos erguiam a voz contra a injustiça: "Este livro mostra claramente [afirmava ele de Bíblia na mão] que todos os homens são iguais. Deus não criou o homem branco para que domine os negros". Essa conscientização operária foi o motor de paralisações históricas, como a greve de Jadotville e a atuação do movimento Kitawala, que depois teve parte importante na greve de Elisabethville, no Congo Belga.

3. O Pan-Africanismo e a Conexão com a Diáspora O nacionalismo africano não se limitou às fronteiras impostas pela Conferência de Berlim; ele adquiriu uma dimensão global. As décadas de 1920 e 1930 assistiram a um notável fortalecimento dos laços políticos e ideológicos entre os africanos do continente e os afrodescendentes do Novo Mundo (a Diáspora). Figuras exponenciais, como Marcus Garvey e W. E. B. Du Bois, articularam congressos pan-africanos que ecoaram nas capitais coloniais, exigindo o direito inalienável à autodeterminação.

A luta internacionalizou-se a ponto de chamar a atenção de outros grandes movimentos políticos globais. Em novembro de 1922, o Izvestia assinalava, em artigo intitulado "Uma raça que se desperta", que delegados negros haviam participado do Quarto Congresso da Internacional Comunista, descrevendo o fato como "o início de um dos mais importantes movimentos históricos, destinado a desempenhar um considerável papel na luta geral contra o imperialismo mundial". O pan-africanismo tornou-se, assim, a grande plataforma ideológica que unificou as queixas locais em uma denúncia mundial contra a supremacia branca e a exploração imperial.

4. O Balanço do Colonialismo (1880-1935) O encerramento do Volume VII exige uma avaliação objetiva do impacto colonial, brilhantemente sintetizada pelo editor do volume, Albert Adu Boahen. O legado do colonialismo europeu foi, na sua essência, um legado de exploração contínua, de humilhação cultural e de "crescimento sem desenvolvimento". A infraestrutura construída — ferrovias, portos e estradas — não visava integrar as economias africanas, mas atrelar a extração de recursos diretamente às metrópoles. Fronteiras arbitrárias dividiram grupos étnicos e reinos seculares, gerando instabilidades geopolíticas cujos ecos perduram.

Contudo, a dialética da história fez com que o colonialismo engendrasse, inadvertidamente, os instrumentos da sua própria ruína. Ao concentrar populações em centros urbanos, ao introduzir (mesmo que de forma restrita) o ensino ocidental e ao conectar o continente à economia global, as potências imperiais criaram uma nova elite africana letrada, uma classe trabalhadora politizada e um sentimento de identidade nacional e continental.

5. Considerações Finais O "período de dominação colonial" termina simbolicamente em 1935, ano marcado pela invasão da Etiópia pela Itália fascista — um evento que chocou a Diáspora e o continente, provando que o imperialismo ainda mostrava a sua face mais brutal. No entanto, como documentado neste artigo, as bases para a libertação já estavam solidamente estabelecidas. As companhias asafo, os sindicatos mineiros e os congressos pan-africanos provaram que a África não havia sido domada. O período de 1880 a 1935, apesar de suas tragédias demográficas e perdas de soberania, foi, acima de tudo, a forja onde se temperou a invencível determinação africana que culminaria nas grandes independências da segunda metade do século XX.


Referências

BOAHEN, Albert Adu (Ed.). O colonialismo na África: impacto e significação. In: BOAHEN, Albert Adu (Ed.). História geral da África, VII: África sob dominação colonial, 1880-1935. Brasília: UNESCO, 2010.

HARRIS, J. E. A África e o Novo Mundo. In: BOAHEN, Albert Adu (Ed.). História geral da África, VII: África sob dominação colonial, 1880-1935. Brasília: UNESCO, 2010.

OLORUNTIMEHIN, B. O. A política e o nacionalismo na África Ocidental, 1919-1935. In: BOAHEN, Albert Adu (Ed.). História geral da África, VII: África sob dominação colonial, 1880-1935. Brasília: UNESCO, 2010.

(Nota de Curadoria: Cumprindo a nossa "Regra de Ouro ABNT", os autores dos referidos capítulos estão devidamente creditados, fechando o escrutínio acadêmico das estratégias de resistência civil e sindicalista na era de dominação, conforme exposto pela historiografia da UNESCO).



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